quinta-feira, 24 de maio de 2007

Perrengue no Dedo de Deus em 1998!






"Quando tudo parecia horrível e nada poderia ser pior fomos surpreendidos por uma torrencial chuva que nos acompanharia até o final. O frio e a fome, nos esperavam no caminho."




Quem de nós montanhistas, pelo menos uma vez na vida não nos deparamos com uma situação realmente difícil? Seja por causa de alguma intempérie, frio ou perda de rumo, que quase sempre nos apanham de surpresa devido a nossa inexperiência, distração ou quando subestimamos a Natureza. E quando tudo passa, na maioria das vezes, ficamos calados sobre o ocorrido e não contamos a ninguém, tal qual uma criança que fez coisa errada e tem medo de apanhar da mãe. A minha opinião é que estas situações devem ser contadas sim, pois desta forma é possível que alguns aprendam com os nossos erros. Infelizmente é difícil achar textos como este na internet pois o orgulho e a vaidade de muitos não os permitem expor suas más histórias. Visto de um lado bom, passar por estas situações serve para endurecer o nosso couro e nos fazer aumentar o senso de avaliar de forma eficaz, diversos pontos que podem ser vitais a nossa segurança porém, visto de um lado pessimista estas situações podem também nos levar a morte.
No outono de 1998, em plena Serra dos Órgãos, eu e meu companheiro de escalada fomos surpreendidos por um acontecimento desta natureza quando retornávamos do cume do Dedo de Deus. Foi um verdadeiro perrengue.
Tudo começou numa bela manhã na serra de Teresópolis. O céu estava extremamente azul e límpido, era sete horas da manhã aproximadamente. Pegamos uma carona até a entrada da trilha e quando íamos começar a caminhar olhei em direção a baía de Guanabara onde pude avistar na linha do horizonte, algumas nuvens. Neste momento indaguei meu companheiro sobre a possibilidade da chegada de mal tempo, porém devido ao céu límpido e a vontade que estávamos de chegar no cume, logo nos convencemos que aquilo não chegaria lá antes de descermos. Pois bem, iniciamos a trilha, passamos pelos cabos e logo já estávamos na base da via Teixeira, que era por onde começaríamos nossa escalada. Escalada esta, que foi maravilhosa. Clima ótimo, não havia ninguém no Dedo aquele dia. Subimos bem devagar curtindo o visual, tirando fotos, contando piadas. Uma beleza de escalada. Se bem me recordo chegamos ao cume e por lá permanecemos até umas 15:30 hs. ou 16:00 hs. que é o horário mais seguro para que se possa chegar a saída da trilha ainda de dia. Tudo tranqüilo até então...
Começamos a descer a Teixeira e 16:30 hs. já estávamos em sua base. Pronto! Apesar do aparente bom tempo, dizíamos: o pior ponto para sermos surpreendidos por uma chuva já passou. Agora é só descer os cabos, a trilha e acabou. Ledo engano. Esta hora o destino começava a conspirar contra nós.
Chegando no primeiro cabo, coloquei minhas luvas e comecei a descê-lo. Após uns dois lances meu companheiro de escalada começou a sentir dores no braço e comunicou a sua intenção de rapelar os lances do cabo com a sua corda dinâmica, pois desta forma poderia se poupar da dor que estava sentindo. De início percebi que o tempo despendido para ele realizar os rapeis seria bem maior do que o que levaríamos para descer os cabos no braço mas, mesmo assim, concordei. Desci os cabos e esperei meu companheiro no último lance onde realmente teríamos que usar a corda. Mal sabíamos que aquele tempo a mais que gastaríamos com os rapeis seria determinante para que nos encontrássemos com o que estava por vir. Este foi nosso primeiro grande erro.
Continuamos e percebemos que o clima começava a esfriar. O céu azul dava agora lugar à nuvens carregadas que chegavam pouco a pouco, juntamente com aquele borrifar suave que até era agradável. Aproximadamente as 17:45 hs., realizado o último rapel, paramos para guardar os equipamentos nas mochilas. Não estavam pesadas, pois somente levamos blusas comuns, chocolates, equipamentos e água, que já estava no final. Nenhum anorak. Nosso segundo grande erro.
Tudo pronto para iniciarmos a trilha, quando para nossa surpresa, um nevoeiro muito espesso tomou conta de tudo, uma verdadeira parede branca. Eram as nuvens que estavam no horizonte que tinham chegado para nos dizer "olá". Tudo era branco e a visibilidade era quase zero. Nem raciocinamos, pois tudo que queríamos era sair bem rápido dali. Ligamos nossas lanternas frontais, pois já estava escurecendo e a temperatura caia rápido. Começamos rapidamente a descer a trilha. Tudo estava bem até percebermos que aquela não era a trilha correta e sim uma falsa trilha feita por algum montanhista distraído que andou por lá antes de nós entretanto, mais distraídos fomos nós que adentramos pelo caminho incorreto. Até hoje não entendo o porquê mas em vez de voltarmos ao ponto de onde havíamos partido resolvemos, então, contrariando totalmente as regras básicas de orientação, continuar nesta rota, tentando, inicialmente, achar a trilha verdadeira em meio ao nevoeiro. Como se já não bastasse este foi o terceiro grande erro.
Quando tudo parecia horrível e nada poderia ser pior fomos surpreendidos por uma torrencial chuva que nos acompanharia até o final. O frio e a fome, nos esperavam no caminho.
O caminho que pegaríamos nesta etapa da nossa provação seria o que conseguíssemos enxergar e logicamente, para baixo, em direção aos ruídos da então distante auto-pista Rio-Teresópolis. Não poderíamos parar para nada, pois se assim fizéssemos a hipotermia certamente nos encontraria. O problema é que como não enxergávamos nada e estávamos fora da trilha em meio a vegetação, buracos e precipícios, seria arriscado caminharmos sem alguma segurança, então resolvemos montar consecutivos rapeis nas áreas mais íngremes usando as árvores como ancoragem, e tomando muito cuidado para que não houvesse um quarto grande erro. Este procedimento atrasou consideravelmente nossa progressão.
Foram rapeis e mais rapeis, parecia que não ia mais ter fim. Às vezes a corda enroscava e fazíamos uma força sobrenatural para puxá-la. Já estávamos exaustos e com muito frio. Lembro do meu companheiro fazendo uma piada bem no meio dessa situação. Fiquei bravo e disse que aquela não era uma boa ocasião para piadas. Só depois fui perceber que bom humor nestas ocasiões é uma verdadeira virtude.
Quando pensamos que já estávamos pra lá de ferrados, nos deparamos com uma pirambeira. Logo percebi que era um barranco bem alto, pois não conseguia ver nenhuma árvore à minha frente, só via aquela massa branca sendo atravessada pelo facho da minha lanterna. E agora? Pensei. E se a corda não for suficiente para descer esta bibóca? Resolvi descer mesmo assim. Peguei um jumar e um cordim, meu companheiro preparou o rapel, "nozão" na ponta da corda e comecei a descer. Descia vagarosamente e olhava para baixo, sem conseguir ver nada além da espessa neblina acompanhada de chuva. Lentamente descendo para o desconhecido. Passado uns segundos, consegui avistar o nó da ponta da corda e abaixo dele havia somente o branco da neblina e chuva que reluzia. Resolvi, então, descer o mais próximo possível do nó, quando para minha surpresa, como se fosse um milagre, aterrissei meus dois pés em chão firme. Foi impressionante!
Após este ponto ainda havia mais alguns infortúnios nos aguardando, não bastasse o frio que estávamos experimentando. A chuva e a neblina apertaram e de repente a lanterna de cabeça do meu companheiro simplesmente se apagou definitivamente. Justamente na hora em que preparávamos mais um rapel para descer outra pirambeira! Que azar! Tudo bem! Dizia eu: já que estamos no inferno vamos abraçar o capeta!
Sem luz, fatalmente ocorreria uma demora para que meu companheiro efetuasse a descida e foi o que aconteceu. Terminada a minha descida gritei para avisá-lo de que já poderia se conectar ao sistema, porém devido a chuva ele não me escutava e até conseguirmos nos comunicar passaram-se quase meia hora, somente neste trecho. O problema é que este tempo que eu ficava esperando meu companheiro, que estava vagaroso devido a falta de iluminação, eu ficava parado, sem anorak e exposto ao vento e a chuva. Logo comecei a sentir os sintomas da hipotermia. Passado algum tempo escutei barulhos na vegetação logo acima de mim, como se alguém estivesse se debatendo. Aumentei o facho de luz de minha lanterna e avistei meu companheiro descendo o rapel de uma forma meio desajeitada. Certamente devido à parede irregular, cheia de vegetação e ao fato de não estar enxergando absolutamente nada. Do ponto onde consegui iluminá-lo até o final tudo foi bem.
Depois de uns 40 rapéis nos debatendo dentre a vegetação, horas de frio e fome, barrancos vencidos mas ainda havíamos de descer. Andamos mais um tempo e chegamos a um riacho que resolvemos seguir, depois de mais uma hora, vimos passar por trás das árvores os faróis de um barulhento caminhão. É isso mesmo! Neste momento estávamos ao lado da estrada da serra de Teresópolis e só conseguimos enxergá-la através da densa neblina porque um caminhoneiro estava subindo a serra às 3:30 hs. da manhã! Você não leu errado não! Eram 3:30 hs. da manhã sim! O início deste perrengue se deu às 17:30 hs. e teve fim às 3:30 hs. da manhã, ou seja, 11 horas de "teste" no meio da Serra dos Órgãos. No momento em que pisamos no asfalto foi o momento em que entendemos que realmente alguém "lá em cima" olhava por nós. Este foi o momento em que a minha lanterna Duo se apagou de uma vez. Ela não fraquejou sequer um minuto durante quase doze horas mas quando colocamos o pé no asfalto e estávamos seguros ela simplesmente "descansou". Desde então ela é meu amuleto da sorte.
Este acontecimento, sem dúvida, serve para mostrar que não devemos nunca subestimar a mãe Natureza e que devemos estar sempre bem preparados para evitar um infortúnio como este. Teresópolitano que sou, me senti um perfeito imbecil, pois sempre soube que o clima na Serra dos Órgãos é traiçoeiro. Já presenciei "trombas d'água" e tempestades naquele local e sei que do céu azul e límpido para o "russo" total é uma questão de minutos! Sempre foi e sempre será assim. O melhor a fazer neste dia seria um bivaque para esperar o clima melhorar, porém não havíamos levado nenhum equipamento que nos permitisse improvisar um abrigo, nem ao menos um anorak que é peça obrigatória na mochila de qualquer escalador. Achei que não íamos precisar de nada além de alguns chocolates, água e equipamentos pois além do clima estar ótimo naquela manhã, todas as vezes que havia escalado o Dedo levei menos de uma hora para percorrer a trilha de volta. Em um dia normal, é claro. Hoje, anos depois posso afirmar que a probabilidade de um fato como este ocorrer novamente comigo é imensamente menor que outrora. Que esta história sirva de exemplo para outros montanhistas para que não tenham que aprender da maneira áspera que eu e meu companheiro tivemos que engolir.

DETALHE: Mais de uma década depois deste ocorrido até repórteres da rede Globo acompanhados de escaladores experientes são surpreendidos pelo clima traiçoeiro da Serra dos Órgãos, vejam:  
http://www.youtube.com/watch?v=9ZxEQ4TB6xA  
http://www.youtube.com/watch#!v=G_4ugpyjny4&feature=related

2 comentários:

Poseddon disse...

Cara, vocês são heróis, passar por tudo isso e chegar bem ao solo....Parabéns.... e ve se na próxima n deixe de levar um equipamento básico.. HAHAHAH

Estamos tramando fazer Dedo de Deus em breve.... isso ajudou mto a turma a ter mais cautela ... abraços

alexandre.poseddon@gmail.com

André Zancanaro disse...

Heróis nada, a gente sobreviveu! Depois dessa vez a gente já escalou várias vezes lá (isso foi em 1998), serviu pra nos ensinar! Abraço!