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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A Conquista do Dedo de Deus

Foto dos conquistadores do Dedo de Deus no dia da conquista. Da esquerda para a direita: Américo de Oliveira, Raul Carneiro, José Teixeira, Alexandre de Oliveira e Acácio de Oliveir
Telegrama enviado de Teresópolis informa sobre a conquista do Dedo de Deus, ocorrida às 11h45min do dia 08 de abril de 1912.

Ascensão Arrojada

Pela primeira vez a bandeira brasileira tremula no *”Dedo de Deus”*.

Telegrama que acabamos de receber de Therezopolis informa-nos da arriscada expedição que fizeram ao *Dedo de Deus* os arrojados excursionistas José Teixeira Guimarães, José Américo Oliveira Junior, Accacio José Oliveira, Raul Carneiro e Alexandre José Oliveira, que deram mostras de grande arrojo na perigosa empresa, e também de bello patriotismo, desfraldando naquelas alturas, virgens de vestígio humano, o auriverde pendão brasileiro.

É a primeira vez que a nossa bandeira fluctua em tão grande altitude.

*Fonte: Jornal “Correiro da Manhã”, 09 de abril de 1912 (terça-feira), pág. 5*

A Primeira ascensão ao “Dedo de Deus”


De Therezopolis escreve-nos o conceituado capitalista sr. Joaquim Freire, que assistiu á ascensão dos primeiros excursionistas que conseguiram galgar os ásperos cimos do “Dedo de Deus”.

“Escrevo-lhe com o espírito incendido e o coração transbordando alegria pelo acontecimento que hoje abalou os que, em Therezopolis, se interessam pelos feitos úteis.

Hoje, dia 8, ás 11,45 da manhã, foi galgado o cimo do grande obelisco conhecido pelo nome de “Dedo de Deus”, que na cordilheira dos òrgãos desafiava as audácias humanas.

A escalada do imponente obelisco, que até hoje era reputado inacessível, só não abalará o mundo scientifico por ter sido feita por meros *touristes*, sem maiores preocupações.

A´s 11.45, ascenderam o cimo; ás 12,40 fincavam a primeira bandeira branca, e á 1 hora içaram a bandeira nacional.

Devo dizer-lhe, sem vaidades, mas intima satisfação, que fui eu quem primeiro desvendou os felizes profanadores do segredo que a Natureza tão avaramente escondeu nos píncaros daquela pedra.

Fui esperal-os à saída da picada, por onde haviam penetrado na serra e vi, com bastante magua, que entre alguns amigos delles só eu representava o elemento veranista.

Conduzi-os ao Hotel Hygino, onde bebemos uma taça de champagne.

Remetto-lhe uma “magnólia silvestre”, colhida no cimo da pedra, onde há alguma vegetação e muita pedra solta.

Na próxima quarta-feira serei portador das photographias dos cinco heróes.

Será o *Correio da Manhã* o primeiro a estampar o retrato dos arrojados excursionistas, como foi o primeiro a receber a nova extraordinária ascensão.”

*Fonte: Jornal “Correio da Manhã”, 10 de abril de 1912 (quarta-feira), primeira página.*

Pesquisa: Acervo da Fundação Biblioteca Nacional.
*por: Claudio Aranha*

*Nota:* A pesquisa foi motivada por dúvida acerca da real data em que ocorreu a conquista do “Dedo de Deus”, já que alguns textos informam ter sido o dia 08 de abril e, outros, em maioria, reportam o dia 09 de abril de 1912. Da fonte consulta, não resta dúvida quanto a ser o dia 08 de abril de 1912, uma segunda-feira, o dia da conquista. Ocorre que, por motivo que desconhecemos, a comemoração da conquista no dia nove se tornou uma tradição entre os montanhistas. Fica como registro histórico a matéria publicada no Jornal “Correio da Manhã”, solicitando-se a quem dispuser de outras fontes de informações sobre o assunto que as envie para que possamos também apresentá-las.

Fonte: http://abresca.com.br
Por: M.Marques
milton@mxb.com.br

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A múmia da Chaminé Gallotti


Ontem, pela manhã, três membros do Club Excursionista Carioca, ao tentarem escalar o Pão de Açucar, pelo lado do mar, por um ponto ainda não explorado, depararam com um quadro macabro. Numa das pequenas fendas que se ligam ao corte principal, denominado pelos audazes alpinistas de “chaminé Galotti”, em homenagem ao senador Galotti, amigo e adminrador dos componentes do Club, os excursionistas Antonio Marcos de Oliveira, morador à Rua Real Grandeza n 188 e Tadeusz Hollup, residente à rua Monte Alegre n. 39, juntamente com o guia Ricardo Menescal, morador na Av. Copacabana n. 664, ap. 201, descobriram um corpo completamente mumificado.

Um sapato de mulher
A reportagem de A NOITE, informada do ocorrido, entrou imediatamente em ação, comunicando-se com o guia do grupo, Ricardo Menescal, que nos relatou o tétrico achado em detalhes.
– Há algum tempo, principiou estudarmos a possibilidade de escalarmos o Pão de Açucar po rum ponto ainda não explorado e, no domingo retrasado, estivemos no ponto mais elevado, isto é, no cume, examinando e esudando as possibilidades. Ontem, resolvemos levar a efeito a tentativa e, depois das 7 horas, encontramo-nos, eu e meus dois companheiros, na praça existente na Praia Vermelha. Dali, conduzindo grampos, martelos, brocas e outros petrechos técnicos, dirigimo-nos para a mata que circunda a base do cume a ser escalada. Costeamos o paredão que o circunda. Ali encontramos um sapato de mulher, um tanto carcomido pelo tempo. Com o achado, surgiram as pilhérias, e com estas uma fictícia busca para o encontro do corpo de uma mulher. Tudo, entretanto, não passava de simples brincadeira. Mal sabiamos que, posteriormente, estaríamos em asento frente à frente com uma realidade chocante.

Impressionante mistério numa fenda do Pão de Açucar

Preso pelo queixo – seriam 11,30 horas quando Antonio Marcos, tentando passar para uma outra fenda, deparou com um quadro brutal, chocante.. Um cadáver, trajando apenas um “pullover” branco, estava no interior da fenda, em posição vertical, dependurado numa saliência, pelo queixo.
Antonio Marcos deu alarma, gritou pelos companheiros.
– Custamos a atendê-lo, pois, momentos antes, haviamos brincado, como disse, em torno do encontro do sapato de mulher. Ante o seu nervosismo insistente, porém, resolvemos acompanhá-lo, deparando-se-nos, então, a todos três, com o quadro impressionante.

Um botão descomunal – Nenhum papel, ou qualquer outra peça do seu vestuário, a não ser o “pullover”. Entretanto, próximo ao local, mesma na fenda, consegui divisar o botão branco, de tamanho pouco vulgar. A meu ver, acrescentou, dada a proximidade em que se achava, deve existir alguma relação entre ele e o cadáver.

Características do morto – O corpo, pode-se dizer, segundo nos relatou o alpinista do Club Carioca, está completamente mumificado, em alguns lugares, descarnado.

Fato Curioso – acrescentou – a princípio julgamos tratar-se de um corpo de mulher, pelos longos cabelos que caíam sobre os ombros, balouçando levemente ao sopro da brisa do marítima.

O local é de difícil acesso e, para um exame mais acurado, tivemos que nos manter suspensos pelas cordas. O corpo, como já relatei, apresenta cabelos compridos, castanhos. No queixo uma pequena barba, e o nariz, arrebitado.

Marcado o local – finalizou – descemos após um rápido almoço, e imediatamente comunicamos o fato ao comissário Mauro, de dia na delegacia do 3º distrito policial.

Indivíduo Jovem
Após a entrevista com Ricardo Menescal, que nos obsequiou ainda com um gráfico do local escalado, bem como o ponto em que foi encontrado o cadáver, palestramos ligeiramente com Antonio Marcos, outro jovem excursionista e que foi o primeiro a divisar o corpo. Disse-nos que, na ocasião, supôs tratar-se de uma mulher, aliás jovem, dado o aspecto geral do cadáver.

Entretanto, olhando mais detidamente, verificou pela barba, tratar-se de um ente do sexo masculino. Qaunto ao botão encontrado, pensa que o mesmo pertença a uma peça do vestuário do morto, muito embora tenha sido encontrado um pouco mais acima, onde também divisou alguns cacos de um prato, o que lhe trouxe maior confusão em torno do estranho achado.

Finalmente, Tadeusz Hollup o terceiro do grupo de jovens alpinistas, confirmou as declarações de seus companheiros, dizendo-se ainda disposto a enfrentar outra escalada, o que se verificará na manhã de hoje.

Bombeiros e polícia
Ao local acorreu a turma do Serviço de Proteção do Corpo de Bombeiros, chefiada pelo 2º tenente Manoel Luiz da Silva, que, dada a hora tardia, resolveu transferir os trabalhos de escalada para a manhã de hoje, de acordo com a autoridade policial encarregada do caso.

Fonte: Jornal A NOITE (19 de setembro de 1949 – segunda-feira)

– transcrição da matéria publica no Jornal A NOITE, de 19 de setembro de 1949 (segunda-feira), 1ª e 2º páginas.
foto: Utaro Kanai (Jornal A NOITE)
Pesquisa: Acervo da Biblioteca Nacional
por Claudio Aranha

Fonte: http://victortrotamundo.wordpress.com
Por: M.Marques
milton@mxb.com.br

domingo, 17 de outubro de 2010

A Conquista da Pedra do Baú

A história da conquista
O ano era 1940 e a conquista ao topo do imponente Baú, que a despeito do nome chama-se assim, por ser uma abreviação de Embáu que em tupi-guarani significa local de vigia com 1950 metros de altitude e paredes de granito com até 360 metros de altura se tornava um tormento para um pacato cidadão de São Bento do Sapucaí de nome Antônio Teixeira de Souza, pedreiro de profissão ele não se conformava com o fato de que ninguém houvera subido a pedra, e mais, queria ser ele o primeiro a por os pés em seu cume. As tentativas foram muitas e em algumas delas teve que ser resgatado por amigos, pois se embrenhava de tal forma em suas escarpas que depois não conseguia descer, porém na noite do dia 12 de agosto de 1940 Antônio que já contava com 51 anos de idade teve um sonho, no qual fora revelado a ele que a face sul do lado de Campos do Jordão é a que deveria ser galgada pela primeira vez. Levantou-se de madrugada ainda meio confuso com o sonho que tivera, e pôs-se a arrumar seu material de conquista, (martelo, uma pequena foice e três metros de corda). Sem perder tempo Antônio descreveu seu sonho ao irmão João também entusiasta da subida, e os dois partiram ainda de madrugada com o precário equipamento que ainda hoje provoca reações de pavor e respeito, foram eles intrépidos e confiantes. A escalada se mostrou mais complicada do que se imaginava, pois além das dificuldades técnicas a quantidade de vegetação presa à parede dificultava muito o progresso, e dava uma falsa sensação de que poderiam se agarrar com firmeza, no final de um dia de muita luta conseguiram realizar o maior sonho de Antônio e um verdadeiro marco na História do montanhismo nacional. E assim escreveu em seu diário: “A escalada da pedra do Baú oferece inúmeros perigos, pois possui trechos quase intransponíveis de pedreiras e abismos profundos. A respeito desse titã de pedra interessantes lendas brotaram da imaginação fértil dos sertanejos que habitavam as suas vizinhanças. Conta uma delas, que bem no alto, no pico da pedra do Baú existe um grande lago onde nas noites de lua cheia Yara a mãe d’água vai banhar-se, tendo arrastado para o fundo das águas aqueles que, em tempos remotos, ousaram escalar a montanha. Outras histórias fabulosas transmitidas de gerações em gerações até os nossos dias são contadas, como a que diz que no topo da pedra do Baú assim como a maravilhosa”edelweiss” dos Alpes, um diamante existe, tão grande e brilhante que as crianças que se detivessem a admirar as suas cintilâncias um só instante não tardariam a ficar cegas. E com essas histórias em tempos idos as meigas e ingênuas mucamas e as velhas mães pretas, assombravam os filhos da Sinhá para fazê-los adormecer.

Como várias pessoas duvidassem que os irmãos “Cortez” , como são mais conhecidos os Teixeira, tivessem alcançado o pico da grande rocha, prontificaram-se eles a repetir a façanha no dia 19 do corrente.

Efetivamente nesse dia mais de trezentas pessoas, entre as quais as autoridades de São Bento do Sapucaí, dirigiram-se ao maciço existente ao lado da pedra do Baú (Ana Chata), também de considerável altura, mas cuja escalada acessível pode ser vencida sem dificuldades, afim de observarem desse ponto a repetição do feito audacioso dos irmãos Teixeira. Não faltou também a presença de uma banda de música. Do cimo da pedra essas pessoas observavam com ansiosa expectativa, o aparecimento dos arrojados jovens na pedra do Bahú, servindo-se dos bons ventos os irmãos Cortez apareceram no ponto culminante da montanha hasteando a bandeira brasileira, enquanto no segundo plano ao som do hino nacional, a multidão de curiosos prorrompia em ensurdecedoras aclamações aos alpinistas. (19 de agosto de 1940 - Diário de Antônio Cortez)”.

Antônio sem se dar conta abriu caminho por uma rota que após cinco anos fora acrescida de degraus metálicos e cabos de aço em seus trechos mais verticais para servirem de acesso comum aos moradores mais valentes daquelas paragens. O sonho ainda não estava completo Antônio achava que deveria ter uma escada na parede que ficava de fronte à sua cidade e após algum tempo da construção da primeira, recebeu permissão e apoio financeiro daquele que era dono dessas terras e muito seu amigo o Empresário Luiz Dummont Villares. Do término da construção das escadas para a construção de um refúgio que foi o primeiro do Brasil construído nos moldes europeus, não se deu muito tempo, o que se sabe, porém é que o refúgio era construído de madeira levada lá para cima com muito custo, e era provido de captador de água externo, beliches, lareira e até um sino de bronze, tudo feito com muito capricho coroado por um erro fatal: não havia supervisão constante, portanto o que antes era um belíssimo ponto de pernoite foi aos poucos virando lenha para a fogueira dos mais inescrupulosos vândalos que por ali passaram. E hoje em dia o piso dessa construção é a única coisa que restou para a lembrança desse tempo.

Fotos:
Foto: Antônio Cortez

Material para construção do Refugio

Material para construção do Refugio

Escada na Rocha

Refúgio

Vista do Refúgio
















O Baú nos dias de hoje - Escaladas e Caminhadas

Fazem mais de sessenta anos da conquista e hoje em dia o complexo da Pedra do Baú (Baú, Ana Chata e Bauzinho) como já foi dito anteriormente, constitui-se em um dos principais pólos do excursionismo e escalada paulista e um dos mais importantes do Brasil, além de seus dois acessos por escadas recém reformadas, conta com inúmeras vias de escaladas em granito dos mais variados graus de dificuldade além do que duas grandes vias que podem exigir do escalador uma pernoite na parede. As escaladas técnicas começaram a ser praticadas nessas pedras na década de setenta, sendo que as vias mais antigas são também algumas das mais freqüentadas por escaladores, no Baú a via “Normal ou com a variante Cresta” são as mais freqüentadas, já no Bauzinho a “Normal da face norte e a Tudo Bem da face sul”, e na Ana Chata a “via dos Lixeiros” que era considerada a mais longa de todo o conjunto na época.

As técnicas utilizadas para escalada podem variar do livre: modalidade em que o escalador utiliza o equipamento somente para sua segurança em caso de queda, ao artificial: modalidade em que a utilização de estribos(escadinhas) é fundamental para a progressão do escalador, pois se subentende que a parede não possui bons pontos de apoio para progressão natural.

O importante é que o escalador que para lá se dirija saiba corretamente as técnicas de segurança, bem como de manuseio de equipamentos (vide box de serviços), além de informar-se a respeito da via que ira escalar, para tanto recomendamos a aquisição do “Manual de Escaladas da Pedra do Baú” por Eliseu Frechou (vide box de serviços), que contém todas as informações necessárias para entrar nas diversas vias desse conjunto.

Subir a pedra do Baú e pernoitar em seu cume com tempo bom, constitui-se em uma experiência única e também um clássico passeio de caminhada nessa região da Mantiqueira, nesse sentido a melhor opção é ir por São Bento do Sapucaí, pacata cidadezinha alcançada por ônibus diário saindo da rodoviária do Tietê em São Paulo.

Cuidados e dicas para integrar-se ao meio ambiente local

- A região ao redor do Baú, numa distância de quatro quilômetros a partir de sua base, é área de proteção ambiental desde 1987 de acordo com a lei municipal (numero 548), porém não existe nenhum tipo de fiscalização que barre a entrada do visitante.

- Pela existência de moradores dentro deste perímetro é muito importante que ao passar por porteiras feche-as como antes para que os animais de criação não escapem.

- Leve todo o lixo de volta para a cidade, isto inclui bitucas de cigarro. Não utilizar nenhum produto de limpeza tipo detergente, sabonete ou shampoo nas bicas que encontrar pelo caminho pois a mesma água que você utilizar, uma outra pessoa que estiver em um desnível inferior pode também usar.

- Não faça barulho demasiado para não afugentar os poucos animais silvestres que ainda existem, e por vezes aparecem.

Por: Marcello Cyrillo Vazzoler

Fonte: www.porva.com.br
Por: M.Marques
milton@mxb.com.br

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Na Natureza Selvagem.

Sean Penn é um ator ousado, que não tem medo de arriscar na hora de compor um personagem. Como todo mundo, às vezes erra, mas quando acerta, o resultado enche tanto os olhos quanto as telas. Como diretor, carreira que vem desenvolvendo sem pressa, ele entrega agora o seu melhor filme, e tudo isso seguindo à risca a ousadia que o tornou conhecido.

Na Natureza Selvagem (Into The Wild, 2007) é inspirado no livro homônimo, escrito por Jon Krakauer, sobre a vida de Chris McCandless. Aos 22 anos, o jovem largou sua estável vida de bom aluno e classe média-alta para partir em busca de liberdade e aventura. Deixou para trás também a sua própria identidade, rebatizando-se Alexander Supertramp. Com um destino em sua mente, o longínquo e desabitado Alasca, ele foi cruzando o continente e as vidas de muitas pessoas que lhe davam carona, casa ou um emprego temporário.

Além de criar um road movie, gênero típico das descobertas e reflexão do personagem, Penn vai também mostrando um pouco do seu país tanto nos aspectos geográficos - passando por corredeira, deserto e neve - quanto humanos. Supertramp vai vendo e entendendo os diferentes níveis de relacionamento que podem haver entre as pessoas, como os hippies Rainey (Brian Dierker) e Jan (Catherine Keener) e o solitário veterano de guerra Ron Franz, papel que rendeu uma justíssima indicação ao Oscar a Hal Holbrook.

Para ajudá-lo a mostrar as paisagens, é imprescindível a participação do diretor de fotografia Eric Gautier (Diários de Motocicleta), que passa o filme equilibrando a importância do protagonista com as paisagens ao seu redor. E para acentuar este trabalho, entra ainda a bela e emotiva trilha sonora criada por Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, em seu primeiro projeto solo.

Fonte: www.omelete.com.br
Autor:
Marcelo Forlani

Trailler do filme:


sábado, 10 de maio de 2008

O mistério do Pico dos Marins.

Nos anos que estou envonvido com o Montanhismo já ouvi diversas histórias fantásticas envolvendo resgates, incendios, acidentes, incidentes e até de aparições fantasmagóricas como por exemplo o cavalo fantasma do acampamento 4 da travessia Petrópolis-Teresópolis que, segundo os antigos visitantes do local se apresentava na forma de sons de galope e relincho de um cavalo passando por entre as barracas, ou mesmo relatos de montanhistas que descendo o monte Aconcágua, quando não havia mais ninguém no cume, olhavam para trás e avistavam a figura de uma pessoa parada os observando. Também já tinha ouvido falar de um escoteiro que em 1985 tinha se perdido no Pico dos Marins (2.422 mtrs), na cidade de Piquete - SP e que nunca havia sido encontrado. Nunca me aprofundei nessa história pois acreditei se tratar de mais uma lenda das montanhas, porém em recente visita a este local pude constatar que tudo se tratava da mais pura verdade.

Em 1985, o então menino Marco Aurélio Bezerra Bosaja Simon, escoteiro do grupo Olivetano de São Paulo perdeu-se na mata e mesmo com uma operação de regate envolvendo 300 pessoas entre bombeiros, soldados do COE, montanhistas, mateiros e voluntários nenhum vestígio do garoto foi encontrado. Desde então diversas hipóteses são levantadas e vão desde a possível entrada do garoto em uma seita religiosa secreta até uma suposta abdução por alienígenas.

Livros sobre o acontecimento:
O jornalista Rodrigo Nunes depois de vasta pesquisa sobre o assunto lançou o livro Operação Marins (acima) que narra os acontecimentos daqueles dias e devido ao sucesso alcançado com a obra várias pessoas envolvidas no resgate o procuraram para relatar novos fatos o que levou ao lançamento do segundo livro de nome Operação Marins 2, novas descobertas (abaixo).
Para quem se interessar (como eu) em saber mais sobre essa história fica aqui minha recomendação em comprar os livros, nesse link e prestigiar o autor por esses excelentes trabalhos.

Para aguçar ainda mais a curiosidade reproduzo abaixo um entrevista ao autor do livro exposta no site Youtube, muito interessante (parte 1 e pate 2):



quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A historia da conquista do Dedo de Deus.

Datam do início do século XIX as primeiras manifestações montanhísticas do Brasil, havendo referências a uma inglesa que teria escalado o Pão de Açúcar (395 m), no Rio de Janeiro, em 1817. Em 1841 é registrada a presença do botânico inglês George Gardner na Pedra do Sino (2263 m), ponto culminante da Serra dos Órgãos.

A primeira escalada ao Pico das Agulhas Negras ou Itatiaiaçu (2787 m), em 1865, é atribuída a José Franklin da Silva. Em 1879 foi escalado o Pico do Marumbi ou Olimpo (1547 m), no Paraná, por um grupo liderado por Joaquim Olímpio de Miranda. Não se pode afirmar, contudo, que esses eventos tivessem qualquer conotação esportiva. O montanhismo como esporte no Brasil é bastante recente e, sem dúvida está intimamente ligado à conquista do Dedo-de-Deus (1675 m) por José Texeira Guimarães, o chefe da expedição, os irmãos Américo de Oliveira - Acácio, Alexandre e Raul Carneiro em 9 de abril de 1912. O Dedo-de-Deus, cujo contorno reproduz com nitidez uma mão apontando o indicador para o céu, é um dos vários monumentos geológicos da Serra dos Órgãos, região compreendida num setor da Serra do Mar - entre as cidades de Petrópolis e Teresópolis - e encontra-se nos limites do Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PARNA-SO), criado pelo Decreto-Lei nº 1822, de 30.11.1939. A área do PARNA-SO é constituída, basicamente, de gnaisse arqueano, sendo alguns picos de granito.

Consta que no início deste século alguns alpinistas estrangeiros teriam tentado, sem êxito, escalar o Dedo-de-Deus, fato que chegou ao conhecimento do ferreiro pernambucano José Texeira Guimarães, radicado em Teresópolis. Lançada por Texeira a idéia da conquista, a ele juntaram-se Raul Carneiro e os irmãos Acácio, Alexandre e Américo Oliveira (foto acima), todos de Teresópolis.

Algumas incursões para reconhecimento do local teriam sido feitas pelo grupo, mas a investida que resultaria na conquista teve início na manhã de 6 de abril de 1912, sendo consumido um dia inteiro na caminhada de aproximação e montagem do acampamento-base. A chuva que caiu no dia seguinte não permitiu qualquer avanço. Na manhã do dia 8 são retomados os trabalhos e aí enfrentam o primeiro grande obstáculo: um paredão vertical de aproximadamente 12 m, com uma calha e fissura do lado direito. Ali são colocados, inicialmente 2 grampos de arganel. Com auxílio de um tronco amarrado aos grampos é vencido um lance e alcançado um pequeno platô; mais 2 grampos e o mesmo recurso do tronco, e o paredão superado. O lance que viria a seguir, com 3 m e igualmente vertical é vencido através de uma pirâmide humana, permitindo atingir a base de uma chaminé horizontal muito estreita, com 8 m de extensão, transposta com alguma dificuldade após a colocação de 4 grampos. Neste ponto é preciso enfrentar um lance externo e bastante exposto que exige a colocação de outros 3 grampos aos quais amarram o tronco; mais um obstáculo é vencido.

Não bastasse a persistente garoa, cai a tarde e começa a escurecer. Já não é mais possível prosseguir. Retornam então, à base do primeiro paredão onde, numa reentrância de pedra, se acomodam para passar a noite. Na manhã do dia 9 de abril reiniciam a escalada superando, um a um, todos os lances vencidos no dia anterior. Chegam, finalmente, a uma chaminé bastante estreita mas de pouca dificuldade ("Arranca-botão"). Outra chaminé vem a seguir, esta em forma de V, sendo cravados 3 grampos no primeiro trecho e mais 2 no segundo, permitindo alcançar um platô bastante amplo. Neste ponto já é possível antever a próxima chegada ao cume, mas o obstáculo agora é o paredão negativo de uns 4 m. Colocando um grampo na base e outro a 1,5 m, fixam a eles um tronco. Com auxílio de pirâmide humana, fazem subir Alexandre, o mais leve, o qual fixa o último grampo, possibilitando, assim, a subida de todo o grupo. Eram 17:00 do dia 9 de abril de 1912 e o Dedo-de-Deus fora finalmente conquistado!

Ao todo foram fixados 19 grampos de arganel (executados por Texeira), alguns dos quais ainda lá se encontravam. Após acender uma fogueira com objetivo de sinalizar para Teresópolis, os conquistadores improvisaram uma cobertura com ramagens e pernoitaram no cume.

Às 10:00 do dia 10 de abril, após hastearem uma bandeira nacional, os escaladores iniciaram a descida. Em Teresópolis foram recebidos como heróis e seu feito notificado com grande destaque pela imprensa. Feito notável para a época, principalmente se considerarmos que não tinham qualquer noção de técnica de escalada nem o equipamento de segurança de que hoje dispomos.

Consta que alguns conquistadores teriam voltado ao Dedo 2 anos após a conquista, mas naquela época não existiam associações de montanhismo e não se dispõe de qualquer registro desses eventos.

O Dedo-de-Deus possui hoje inúmeras vias de escalada além do Caminho Texeira (3º III Sup A-1C). A segunda via a ser conquistada foi a face Leste (3º III), em 1º de outubro de 1944, por Ulysses Braga, Almy Ulysséa e Antonio Augusto Taveira, do CEB. Trata-se de um feito notável, já que não foi colocado um só grampo em toda a extensão da escalada. Outras escaladas se seguiram: em 21 de julho de 1957, Drahomir Vrbas e Hamilton Maciel, do C.E. Carioca (CEC), conquistaram a Maria Cebola (III Sup), variante da Chaminé "Black-Out" da Face Leste. Em 29 de setembro de 1963, Claudio Vieira de Castro e Etzel Von Stockert, C.E. Rio de Janeiro (CERJ) conquistam a Face Sul (4º IV A-1). O diedro Salomith (4º IV A-1) é conquistado em 1982 por Amélio Montinelli, Mário Arnaud, Oswaldo Pereira (CEB/CERJ). Em 26 de maio de 88 é conquistada, na Face Norte, uma via de 200 m de extensão (6º VI Sup), sendo seus autores Cláudio V. Castro, Etzel Von Stockert, Mário Arnaud, Maurício Motta e Reinaldo Pires, do CERJ. Entre janeiro e julho de 1989, André Silva Ilha conquista - totalmente em nuts - três fissuras: Pseudo-Alpinista (IV Sup), com 40 m; Tempos Modernos (6º VII), com 85 m e Coração de Cristal (6º VII Sup), com a mesma extensão. Da primeira participou Marcos da Silveira e das duas outras, Ricardo de Moraes. Em 17 de março de 1991, André Ilha e Ricardo de Moraes conquistam a Passagem Abissal (5º VI Sup), uma horizontal com 70 m, toda em nuts, ligando - ao longo da Face Sul - as bases das vias Leste e Texeira.

Fontes: Mountain Voices - Informe Brasileiro de Montanhismo, ano II, nº 12, jul/ago 1992.
Teresópolis 203 anos de História 1788-1991, A. Osiris Rahal, 1991.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Breve história do montanhismo, no mundo e no Brasil.

O que é Montanhismo?

Montanhismo é o nome que se dá ao ato de se galgar montanhas, seja por uso de equipamentos técnicos ou não. Por diversas vezes o termo é confundido com o alpinismo.
O nome "alpinismo" é o mais popular devido aos Alpes, onde, praticamente deu-se início a prática das escaladas em montanha. Por causa de sua popularidade este termo não é designado para caracterizar apenas as escaladas feitas nos Alpes, mas em todas as rochas e montanhas do mundo. Alguns termos como "andinismo", e "himalaismo" também são empregados mas não obtiveram a mesma popularidade.

O montanhismo é uma espécie dentro do gênero do excursionismo. O excursionismo é uma atividade que engloba diversas outras como por exemplo o campismo, a espeleologia, a canoagem, a caminhada por trilhas, o mergulho e também o montanhismo. Geralmente, o termo excursionismo pode substituir o termo montanhismo. Isto geralmente acontece e um exemplo claro disso são os nomes das associações de excursionistas onde a atividade de escalar montanhas prevalece.

O ato mecânico de simplesmente "subir" uma montanha por diversos motivos, sejam eles por desafio ou por prazer, para muitos pode parecer idiotíce, porém o Montanhismo traz em sua essência muitos valores agregados, dentre eles a preservação ambiental, o mínimo impacto, a organização e logística para a superação de obstáculos, o companheirismo, a amizade, o espírito de equipe, a superação dos limites físicos e psicológicos de cada indivíduo.

Um pouco sobre a história do Montanhismo mundial.

Desde o princípio da existência humana, as montanhas despertavam fascínio e temor, pois a elas eram atribuídas características mágicas e sobrenaturais, sendo muitas vezes vistas como a moradia de deuses e criaturas monstruosas, somando-se aos fenômenos meteorológicos e geofísicos que freqüentemente revelavam-se nas suas formas mais severas. Isto manteve o homem longe das grandes montanhas por muito tempo e só no final do século XVI algumas expedições científicas com o objetivo de obter respostas sobre os poderosos fenômenos atmosféricos ousaram escala-las. Estas expedições enfrentavam um ambiente hostil quando não havia tecnologia em equipamentos e nem capacidade técnica devido a falta de experiência. Nesta época era comum associar heroísmo e bravura ao montanhista que com recursos escassos enfrentava um ambiente considerado hostil e muitas vezes fatal.
O ponto de partida do alpinismo moderno se deu em 8 de agosto de 1786 quando os franceses Jacques Balmat e Michel Gabriel Paccard venceram os 4.800 metros do Mont Blanc na Europa. O monte mais alto do planeta, o Everest com 8.882 metros, foi culminado em 1953 pelo neozelandês Edward Hillary e o nepalês Tesing Norkay. Na época este feito foi considerado um ato extremo de bravura e coragem e o alpinismo entrou em sua fase de ouro.


O Marco do Montanhismo Brasileiro.

O marco inicial do alpinismo brasileiro na escalada esportiva (fato qual alguns se opõe) se deu com a conquista do pico do Dedo de Deus na Serra dos Órgãos, próximo ao município de Teresópolis no Rio de Janeiro. Tal título vem do fato de que na época esta formação rochosa foi capaz de repelir várias expedições estrangeiras que a abordaram em tentativas frustradas de escala-la. Logo foi considerado "inescalável" pelos estrangeiros que diziam que "se eles, que eram escaladores experientes não conseguiram escalar o Dedo de Deus, nenhum brasileiro o faria!". Motivados por este desafio um corajoso grupo de rapazes de Teresópolis resolveram escala-lo, mesmo não tendo muita experiência nas técnicas do Alpinismo. Eram eles: José Teixeira Guimarães, ferreiro de profissão; o caçador Raul Carneiro; e os irmãos Alexandre e Américo de Oliveira. Utilizando-se de equipamentos de fabricação própria, como marretas, batedores, grampos (alguns destes grampos estão lá até hoje!) estes cinco escaladores, no dia 3 de abril de 1912 começaram a ultrapassar as inúmeras fendas, chaminés e paredes expostas até seiscentos metros. E finalmente, no dia 9 de abril de 1912 eles chegavam ao cume do Dedo de Deus. A via "Teixeira" até hoje é utilizada (foi regrampeada) para ascensões e descidas no Dedo de Deus.

É bom ressaltar que o Dedo de Deus não foi a primeira montanha a ser escalada no Brasil, mas sim a que mais se destacou. Desde o século 17 os Bandeirantes já galgavam montanhas e no século 19 várias escaladas foram registradas, porém, diferentemente da escalada do Dedo, estas eram motivadas por medições topográficas e estudos.

Algumas ascenções importantes no montanhismo brasileiro:

  • Parte do Agulhas Negras em 1856, por José Franklin Massena.
  • Pão de Açúcar em 1817, por estrangeiros que subiram pelo "Costão".
  • Monte Olimpo em 1879, Serra do Marumbi, por Joaquim Olímpio de Miranda.
  • Cume baixo do Agulhas Negras em 1898, por Horácio de Carvalho e José Frederico Borba.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Perrengue no Dedo de Deus em 1998!






"Quando tudo parecia horrível e nada poderia ser pior fomos surpreendidos por uma torrencial chuva que nos acompanharia até o final. O frio e a fome, nos esperavam no caminho."




Quem de nós montanhistas, pelo menos uma vez na vida não nos deparamos com uma situação realmente difícil? Seja por causa de alguma intempérie, frio ou perda de rumo, que quase sempre nos apanham de surpresa devido a nossa inexperiência, distração ou quando subestimamos a Natureza. E quando tudo passa, na maioria das vezes, ficamos calados sobre o ocorrido e não contamos a ninguém, tal qual uma criança que fez coisa errada e tem medo de apanhar da mãe. A minha opinião é que estas situações devem ser contadas sim, pois desta forma é possível que alguns aprendam com os nossos erros. Infelizmente é difícil achar textos como este na internet pois o orgulho e a vaidade de muitos não os permitem expor suas más histórias. Visto de um lado bom, passar por estas situações serve para endurecer o nosso couro e nos fazer aumentar o senso de avaliar de forma eficaz, diversos pontos que podem ser vitais a nossa segurança porém, visto de um lado pessimista estas situações podem também nos levar a morte.
No outono de 1998, em plena Serra dos Órgãos, eu e meu companheiro de escalada fomos surpreendidos por um acontecimento desta natureza quando retornávamos do cume do Dedo de Deus. Foi um verdadeiro perrengue.
Tudo começou numa bela manhã na serra de Teresópolis. O céu estava extremamente azul e límpido, era sete horas da manhã aproximadamente. Pegamos uma carona até a entrada da trilha e quando íamos começar a caminhar olhei em direção a baía de Guanabara onde pude avistar na linha do horizonte, algumas nuvens. Neste momento indaguei meu companheiro sobre a possibilidade da chegada de mal tempo, porém devido ao céu límpido e a vontade que estávamos de chegar no cume, logo nos convencemos que aquilo não chegaria lá antes de descermos. Pois bem, iniciamos a trilha, passamos pelos cabos e logo já estávamos na base da via Teixeira, que era por onde começaríamos nossa escalada. Escalada esta, que foi maravilhosa. Clima ótimo, não havia ninguém no Dedo aquele dia. Subimos bem devagar curtindo o visual, tirando fotos, contando piadas. Uma beleza de escalada. Se bem me recordo chegamos ao cume e por lá permanecemos até umas 15:30 hs. ou 16:00 hs. que é o horário mais seguro para que se possa chegar a saída da trilha ainda de dia. Tudo tranqüilo até então...
Começamos a descer a Teixeira e 16:30 hs. já estávamos em sua base. Pronto! Apesar do aparente bom tempo, dizíamos: o pior ponto para sermos surpreendidos por uma chuva já passou. Agora é só descer os cabos, a trilha e acabou. Ledo engano. Esta hora o destino começava a conspirar contra nós.
Chegando no primeiro cabo, coloquei minhas luvas e comecei a descê-lo. Após uns dois lances meu companheiro de escalada começou a sentir dores no braço e comunicou a sua intenção de rapelar os lances do cabo com a sua corda dinâmica, pois desta forma poderia se poupar da dor que estava sentindo. De início percebi que o tempo despendido para ele realizar os rapeis seria bem maior do que o que levaríamos para descer os cabos no braço mas, mesmo assim, concordei. Desci os cabos e esperei meu companheiro no último lance onde realmente teríamos que usar a corda. Mal sabíamos que aquele tempo a mais que gastaríamos com os rapeis seria determinante para que nos encontrássemos com o que estava por vir. Este foi nosso primeiro grande erro.
Continuamos e percebemos que o clima começava a esfriar. O céu azul dava agora lugar à nuvens carregadas que chegavam pouco a pouco, juntamente com aquele borrifar suave que até era agradável. Aproximadamente as 17:45 hs., realizado o último rapel, paramos para guardar os equipamentos nas mochilas. Não estavam pesadas, pois somente levamos blusas comuns, chocolates, equipamentos e água, que já estava no final. Nenhum anorak. Nosso segundo grande erro.
Tudo pronto para iniciarmos a trilha, quando para nossa surpresa, um nevoeiro muito espesso tomou conta de tudo, uma verdadeira parede branca. Eram as nuvens que estavam no horizonte que tinham chegado para nos dizer "olá". Tudo era branco e a visibilidade era quase zero. Nem raciocinamos, pois tudo que queríamos era sair bem rápido dali. Ligamos nossas lanternas frontais, pois já estava escurecendo e a temperatura caia rápido. Começamos rapidamente a descer a trilha. Tudo estava bem até percebermos que aquela não era a trilha correta e sim uma falsa trilha feita por algum montanhista distraído que andou por lá antes de nós entretanto, mais distraídos fomos nós que adentramos pelo caminho incorreto. Até hoje não entendo o porquê mas em vez de voltarmos ao ponto de onde havíamos partido resolvemos, então, contrariando totalmente as regras básicas de orientação, continuar nesta rota, tentando, inicialmente, achar a trilha verdadeira em meio ao nevoeiro. Como se já não bastasse este foi o terceiro grande erro.
Quando tudo parecia horrível e nada poderia ser pior fomos surpreendidos por uma torrencial chuva que nos acompanharia até o final. O frio e a fome, nos esperavam no caminho.
O caminho que pegaríamos nesta etapa da nossa provação seria o que conseguíssemos enxergar e logicamente, para baixo, em direção aos ruídos da então distante auto-pista Rio-Teresópolis. Não poderíamos parar para nada, pois se assim fizéssemos a hipotermia certamente nos encontraria. O problema é que como não enxergávamos nada e estávamos fora da trilha em meio a vegetação, buracos e precipícios, seria arriscado caminharmos sem alguma segurança, então resolvemos montar consecutivos rapeis nas áreas mais íngremes usando as árvores como ancoragem, e tomando muito cuidado para que não houvesse um quarto grande erro. Este procedimento atrasou consideravelmente nossa progressão.
Foram rapeis e mais rapeis, parecia que não ia mais ter fim. Às vezes a corda enroscava e fazíamos uma força sobrenatural para puxá-la. Já estávamos exaustos e com muito frio. Lembro do meu companheiro fazendo uma piada bem no meio dessa situação. Fiquei bravo e disse que aquela não era uma boa ocasião para piadas. Só depois fui perceber que bom humor nestas ocasiões é uma verdadeira virtude.
Quando pensamos que já estávamos pra lá de ferrados, nos deparamos com uma pirambeira. Logo percebi que era um barranco bem alto, pois não conseguia ver nenhuma árvore à minha frente, só via aquela massa branca sendo atravessada pelo facho da minha lanterna. E agora? Pensei. E se a corda não for suficiente para descer esta bibóca? Resolvi descer mesmo assim. Peguei um jumar e um cordim, meu companheiro preparou o rapel, "nozão" na ponta da corda e comecei a descer. Descia vagarosamente e olhava para baixo, sem conseguir ver nada além da espessa neblina acompanhada de chuva. Lentamente descendo para o desconhecido. Passado uns segundos, consegui avistar o nó da ponta da corda e abaixo dele havia somente o branco da neblina e chuva que reluzia. Resolvi, então, descer o mais próximo possível do nó, quando para minha surpresa, como se fosse um milagre, aterrissei meus dois pés em chão firme. Foi impressionante!
Após este ponto ainda havia mais alguns infortúnios nos aguardando, não bastasse o frio que estávamos experimentando. A chuva e a neblina apertaram e de repente a lanterna de cabeça do meu companheiro simplesmente se apagou definitivamente. Justamente na hora em que preparávamos mais um rapel para descer outra pirambeira! Que azar! Tudo bem! Dizia eu: já que estamos no inferno vamos abraçar o capeta!
Sem luz, fatalmente ocorreria uma demora para que meu companheiro efetuasse a descida e foi o que aconteceu. Terminada a minha descida gritei para avisá-lo de que já poderia se conectar ao sistema, porém devido a chuva ele não me escutava e até conseguirmos nos comunicar passaram-se quase meia hora, somente neste trecho. O problema é que este tempo que eu ficava esperando meu companheiro, que estava vagaroso devido a falta de iluminação, eu ficava parado, sem anorak e exposto ao vento e a chuva. Logo comecei a sentir os sintomas da hipotermia. Passado algum tempo escutei barulhos na vegetação logo acima de mim, como se alguém estivesse se debatendo. Aumentei o facho de luz de minha lanterna e avistei meu companheiro descendo o rapel de uma forma meio desajeitada. Certamente devido à parede irregular, cheia de vegetação e ao fato de não estar enxergando absolutamente nada. Do ponto onde consegui iluminá-lo até o final tudo foi bem.
Depois de uns 40 rapéis nos debatendo dentre a vegetação, horas de frio e fome, barrancos vencidos mas ainda havíamos de descer. Andamos mais um tempo e chegamos a um riacho que resolvemos seguir, depois de mais uma hora, vimos passar por trás das árvores os faróis de um barulhento caminhão. É isso mesmo! Neste momento estávamos ao lado da estrada da serra de Teresópolis e só conseguimos enxergá-la através da densa neblina porque um caminhoneiro estava subindo a serra às 3:30 hs. da manhã! Você não leu errado não! Eram 3:30 hs. da manhã sim! O início deste perrengue se deu às 17:30 hs. e teve fim às 3:30 hs. da manhã, ou seja, 11 horas de "teste" no meio da Serra dos Órgãos. No momento em que pisamos no asfalto foi o momento em que entendemos que realmente alguém "lá em cima" olhava por nós. Este foi o momento em que a minha lanterna Duo se apagou de uma vez. Ela não fraquejou sequer um minuto durante quase doze horas mas quando colocamos o pé no asfalto e estávamos seguros ela simplesmente "descansou". Desde então ela é meu amuleto da sorte.
Este acontecimento, sem dúvida, serve para mostrar que não devemos nunca subestimar a mãe Natureza e que devemos estar sempre bem preparados para evitar um infortúnio como este. Teresópolitano que sou, me senti um perfeito imbecil, pois sempre soube que o clima na Serra dos Órgãos é traiçoeiro. Já presenciei "trombas d'água" e tempestades naquele local e sei que do céu azul e límpido para o "russo" total é uma questão de minutos! Sempre foi e sempre será assim. O melhor a fazer neste dia seria um bivaque para esperar o clima melhorar, porém não havíamos levado nenhum equipamento que nos permitisse improvisar um abrigo, nem ao menos um anorak que é peça obrigatória na mochila de qualquer escalador. Achei que não íamos precisar de nada além de alguns chocolates, água e equipamentos pois além do clima estar ótimo naquela manhã, todas as vezes que havia escalado o Dedo levei menos de uma hora para percorrer a trilha de volta. Em um dia normal, é claro. Hoje, anos depois posso afirmar que a probabilidade de um fato como este ocorrer novamente comigo é imensamente menor que outrora. Que esta história sirva de exemplo para outros montanhistas para que não tenham que aprender da maneira áspera que eu e meu companheiro tivemos que engolir.

DETALHE: Mais de uma década depois deste ocorrido até repórteres da rede Globo acompanhados de escaladores experientes são surpreendidos pelo clima traiçoeiro da Serra dos Órgãos, vejam:  
http://www.youtube.com/watch?v=9ZxEQ4TB6xA  
http://www.youtube.com/watch#!v=G_4ugpyjny4&feature=related